Toda semana, alguma versão desta cena acontece no meu consultório.
Uma mãe entra com o celular na mão. Antes mesmo de sentar, me mostra um vídeo gravado de madrugada: o filho de 5 anos dormindo de boca aberta, roncando alto, o peito afundando a cada respiração. Em alguns momentos, o ronco para. Silêncio. Três, quatro, cinco segundos. E então vem um engasgo, e a respiração volta.
“Doutor, isso é normal?”
Não, não é. E se você já ficou acordada de madrugada olhando o seu filho respirar, este texto é para você.
Hoje vamos conversar sobre amígdalas e adenoide: o que elas são, quando viram um problema e, principalmente, quando a cirurgia realmente vale a pena — e quando dá para esperar.
O Que São as Amígdalas e a Adenoide (e Por Que Crescem Tanto na Infância)
As amígdalas (o nome técnico é tonsilas palatinas) são aquelas duas “bolinhas” que você vê no fundo da garganta, uma de cada lado. A adenoide fica num lugar que não dá para enxergar olhando pela boca: atrás do nariz, no ponto em que o nariz encontra a garganta.
As duas fazem parte do sistema de defesa do corpo. São tecido linfoide — uma espécie de “posto de vigilância” na entrada das vias aéreas.
E aqui está um detalhe que explica muita coisa: esse tecido costuma crescer bastante entre os 2 e os 6 anos, exatamente a fase em que a criança está conhecendo o mundo (e os vírus da escolinha). Só que o nariz e a garganta de uma criança pequena são estreitos. Quando amígdalas e adenoide crescem demais dentro de um espaço que ainda é pequeno, o ar simplesmente não passa direito.
Por isso, a pergunta nunca é “a amígdala está grande?”. A pergunta certa é: o tamanho dela está atrapalhando a vida do seu filho?
Os Sinais de Que Algo Não Vai Bem
Muitos pais acham que esses sinais são “jeito da criança”. Veja se você reconhece algum:
- Ronco frequente — três ou mais noites por semana não é “fofo”, é sinal de que a via aérea está apertada
- Pausas na respiração durante o sono, engasgos ou respiração com esforço (o peito “afundando”)
- Respiração pela boca o dia inteiro, com a boca sempre entreaberta
- Sono agitado: a criança gira na cama, dorme com o pescoço esticado para trás, sua muito
- Voltar a fazer xixi na cama depois de já ter desfraldado
- Cansaço, irritabilidade e agitação durante o dia — e, às vezes, dificuldade de atenção na escola
- Voz “fanhosa”, como se estivesse sempre resfriada
- Dores de garganta de repetição, com febre, várias vezes por ano
- Otites de repetição ou líquido atrás do tímpano que não vai embora
Um ponto que merece atenção especial: criança que dorme mal nem sempre fica sonolenta como o adulto. Muitas vezes ela fica é mais agitada. Não é raro eu ver crianças sendo investigadas por problemas de comportamento ou de atenção quando, na verdade, o que elas precisam é conseguir dormir direito.
Como a Avaliação É Feita
Para saber se o caso do seu filho tem indicação de cirurgia, a avaliação envolve:
- Conversa detalhada sobre o sono, as infecções e o impacto disso no dia a dia (vídeos do sono gravados pelos pais ajudam muito)
- Exame da garganta, para avaliar o tamanho das amígdalas
- Nasofibroscopia — uma câmera fininha e flexível que entra pelo nariz e permite ver, ao vivo, o tamanho da adenoide e o quanto ela obstrui a passagem do ar
- Em casos selecionados, a polissonografia (o “exame do sono”), principalmente em crianças muito pequenas, com obesidade, síndromes ou outras doenças associadas, ou quando o exame não combina com a história
- Para as infecções, um diário de amigdalites: data de cada episódio e o que o pediatra encontrou
Quando a Cirurgia É Indicada (Pelos Critérios da Ciência, Não pelo “Achismo”)
A retirada das amígdalas (amigdalectomia) e da adenoide (adenoidectomia) está entre as cirurgias mais realizadas em crianças no mundo. Justamente por isso, existem critérios bem definidos nas diretrizes internacionais. Os principais são:
1. Distúrbio respiratório do sono e apneia
Hoje, essa é a principal indicação. Quando a criança tem ronco com pausas respiratórias, sono ruim e consequências durante o dia, e as amígdalas e/ou a adenoide estão aumentadas, a cirurgia costuma ser o tratamento de primeira linha. Na maioria dessas crianças, a operação melhora o sono, o comportamento e a qualidade de vida.
2. Amigdalites de repetição
Aqui existe uma regra clássica, usada pelas diretrizes, que considera a cirurgia quando a criança tem:
- 7 ou mais episódios de amigdalite em 1 ano, ou
- 5 ou mais episódios por ano em 2 anos seguidos, ou
- 3 ou mais episódios por ano em 3 anos seguidos
E esses episódios precisam ser documentados: dor de garganta acompanhada de febre, placas de pus nas amígdalas, ínguas doloridas no pescoço ou teste positivo para estreptococo. “Ele vive com dor de garganta” não é suficiente — por isso eu sempre peço aos pais que anotem cada episódio.
Se a criança não chega a esses números, a recomendação é observar. Muitas crianças simplesmente melhoram com o tempo.
3. Problemas de ouvido e de nariz ligados à adenoide
A adenoide aumentada pode bloquear o canal que ventila o ouvido (a tuba auditiva) e o fundo do nariz. Por isso, ela pode ser retirada em crianças com otites de repetição ou com secreção persistente atrás do tímpano — muitas vezes junto com a colocação de tubinhos de ventilação — e em alguns casos de sinusite de repetição na infância.
4. Outras situações
Há indicações menos comuns, como abscesso ao redor da amígdala que se repete, amígdalas muito diferentes uma da outra (que exigem investigação) e algumas síndromes de febre periódica da infância. Essas são avaliadas caso a caso.
“Doutor, Não Dá Para Tentar Remédio Antes?”
Às vezes, sim. E esse é um ponto em que eu insisto muito.
Para a adenoide aumentada, especialmente em crianças com rinite alérgica, o spray nasal de corticoide, usado corretamente por algumas semanas, pode reduzir o inchaço e melhorar a respiração e o ronco em parte das crianças. Lavagem nasal com soro e controle da alergia também ajudam. Se melhorar, ótimo: ganhamos tempo e, às vezes, evitamos a cirurgia.
Já para as amígdalas muito grandes causando apneia, ou para as infecções de repetição que preenchem os critérios, o tratamento clínico tem papel limitado. O antibiótico trata a infecção da vez, mas não impede a próxima.
Existe ainda a opção de esperar com acompanhamento. Um grande estudo americano (o CHAT, publicado no New England Journal of Medicine) acompanhou crianças com apneia leve a moderada por cerca de 7 meses. Entre as que apenas foram observadas, quase metade teve normalização do exame do sono. Entre as operadas, foram cerca de 8 em cada 10 — e com melhora mais consistente do comportamento, dos sintomas e da qualidade de vida.
Ou seja: esperar pode ser razoável em casos leves, desde que seja uma espera vigiada, e não um “vamos ver no que dá” por anos.
A Pergunta Que Mais Assusta os Pais: “A Imunidade Dele Vai Cair?”
Essa é, de longe, a dúvida que eu mais ouço. Os estudos que avaliaram a imunidade de crianças operadas não mostraram prejuízo clinicamente relevante. O corpo tem muitos outros “postos de vigilância” linfoides espalhados pela garganta, pelo nariz e pelo intestino. A amígdala é um deles — não o único.
Na prática, muitas crianças que viviam doentes passam a ficar menos doentes depois de uma cirurgia bem indicada, porque o foco de infecção de repetição deixa de existir.
Para ser totalmente honesto: alguns estudos populacionais levantaram associações entre a cirurgia na infância e certas doenças respiratórias no futuro. São estudos observacionais, que não provam causa e efeito — mas reforçam algo em que acredito: essa cirurgia deve ser feita quando há indicação clara, e não “por via das dúvidas”.
Como É a Cirurgia Hoje
- Feita com anestesia geral: a criança dorme durante todo o procedimento
- Toda por dentro da boca, sem cortes no rosto ou no pescoço
- Dura, em geral, menos de uma hora (a adenoide isolada costuma ser ainda mais rápida)
- Na maioria dos casos, a alta acontece no mesmo dia ou no dia seguinte; crianças muito pequenas ou com apneia grave ficam em observação por uma noite
- Em casos selecionados, existe a amigdalectomia parcial (intracapsular), que remove a maior parte da amígdala preservando uma fina camada, com recuperação geralmente menos dolorosa. Ela não serve para todos os casos, e a indicação é individual
Você pode conhecer as outras cirurgias em otorrino que realizo.
O Pós-Operatório, Sem Rodeios
Não vou romantizar: a recuperação da amigdalectomia dói. Bem menos do que nos relatos de antigamente, mas dói — e é melhor saber disso antes.
- A dor de garganta costuma durar de 7 a 10 dias, às vezes com dor de ouvido (é uma dor reflexa, que vem da garganta)
- É comum a dor piorar um pouco entre o 3º e o 6º dia, quando as “casquinhas” da cicatrização começam a se soltar
- Aparecem placas esbranquiçadas no local operado: é a cicatrização normal, não é infecção
- A alimentação deve ser fria ou morna e pastosa nos primeiros dias — e o mais importante de tudo é a hidratação
- Na cirurgia só da adenoide, a recuperação é bem mais rápida, geralmente de poucos dias
- O retorno à escola costuma acontecer entre 10 e 14 dias após a amigdalectomia
O controle da dor é feito com analgésicos e anti-inflamatórios seguros para a idade, em horários definidos — as diretrizes atuais consideram o ibuprofeno seguro nesse pós-operatório. Já a codeína não deve ser usada em crianças após essa cirurgia.
Sinais de alerta: qualquer sangramento vivo pela boca ou pelo nariz — principalmente entre o 5º e o 10º dia —, recusa total de líquidos, sinais de desidratação (pouco xixi) ou febre alta persistente devem ser avaliados imediatamente. São situações pouco frequentes, mas toda família sai do hospital com orientação por escrito sobre o que fazer.
E o Convênio?
Quando há indicação médica bem documentada, a amigdalectomia e a adenoidectomia são cirurgias funcionais e costumam ter cobertura pelos planos de saúde. Você pode conferir os convênios aceitos e entender como funciona o reembolso de cirurgias para planos com livre escolha.
Perguntas Frequentes Sobre Cirurgia de Amígdalas e Adenoide
Existe idade mínima para operar?
Não existe uma idade mínima fixa. A cirurgia pode ser feita em crianças pequenas quando há indicação clara, como uma apneia importante. Abaixo dos 3 anos, os cuidados são redobrados e a criança costuma ficar internada em observação na primeira noite.
A amígdala ou a adenoide podem crescer de novo?
Na amigdalectomia completa, é muito raro. A adenoide pode voltar a crescer em uma minoria dos casos, principalmente em crianças operadas muito pequenas ou com alergia nasal mal controlada. Na amigdalectomia parcial, existe uma chance pequena de recrescimento.
Meu filho vai parar de roncar?
Na maioria das crianças em que o ronco é causado por amígdalas e adenoide grandes, sim — e a melhora costuma ser percebida já nas primeiras semanas. Quando há outros fatores, como obesidade, rinite ou alterações no formato da face, pode ser necessário tratamento complementar.
Precisa tomar antibiótico depois da cirurgia?
As diretrizes atuais não recomendam antibiótico de rotina após a amigdalectomia: ele não reduz a dor nem acelera a recuperação de forma relevante.
Respirar pela boca muda o rosto da criança?
A respiração oral crônica durante a fase de crescimento pode influenciar o desenvolvimento da face e da arcada dentária. Por isso, muitas vezes o tratamento envolve também ortodontista e fonoaudiólogo.
Adulto também opera amígdala?
Sim. Em adultos, as indicações mais comuns são amigdalites de repetição, abscessos, alguns casos de apneia e cáseos (as “bolinhas” com mau cheiro) que não melhoram com tratamento. A recuperação no adulto costuma ser mais dolorosa que na criança.
A Decisão É Sua — Mas Ela Precisa Ser Bem Informada
Voltando à mãe do vídeo de madrugada: o que ela precisava não era de alguém dizendo “opera” ou “não opera” no primeiro minuto. Era de uma avaliação completa — história, exame, nasofibroscopia e, quando necessário, o exame do sono — para tomar a decisão certa.
Amígdalas e adenoide não devem ser retiradas “porque sim”. Mas também não devem ser mantidas a qualquer custo enquanto a criança dorme mal, vive cansada e passa de antibiótico em antibiótico.
A otorrinolaringologia pediátrica é a área a que dediquei o meu doutorado, e uma das partes mais gratificantes do meu trabalho é ver uma família voltar ao consultório contando que, pela primeira vez em muito tempo, todo mundo em casa dormiu a noite inteira.
Se você se reconheceu neste texto, agende a avaliação do seu filho pelo WhatsApp e dê o primeiro passo para noites mais tranquilas — para ele e para você.
Dr. Jonatas Villa — Otorrinolaringologista | CRM 182.817 | RQE 85.640
Atendimento em São Paulo. Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica.