
Resumo
Este estudo avaliou e comparou os efeitos de dois métodos terapêuticos — o treino olfatório (TO) e o tratamento com glucocorticoides (GC) — em pacientes com sinusite crônica com pólipos (CRSwNP) que apresentam disfunção olfatória (perda ou diminuição do cheiro).
Objetivo
Investigar qual abordagem (TO, GC ou ambas) promove melhor recuperação da função olfativa em pacientes com polipose nasal crônica, diferenciando ainda o subtipo eosinofílico (ECRSwNP) e não-eosinofílico (NonECRSwNP).
Métodos
- Após cirurgia endoscópica dos seios nasais, foram selecionados pacientes com escore de TDIS (threshold-discrimination-identification) inferior a 30,5.
- Randomização para três grupos: GC (n=38), TO (n=36) e combinação GC + TO (n=34).
- Estratificação retrospectiva em dois tipos de CRSwNP:
- ECRSwNP: eosinófilos no tecido >10%
- NonECRSwNP: eosinófilos ≤10%
- Avaliações nos seguimentos de 1, 3 e 6 meses pós-intervenção, utilizando:
- Escore TDIS (função olfativa objetiva)
- SNOT-22 (qualidade de vida relacionada à rinosinusite)
- Escore endoscópico de Lund‑Kennedy Endoscopic Score (LKES)
- Frequência de flutuações olfatórias (OF)
Resultados principais
- Todos os grupos apresentaram melhora no SNOT-22 e no LKES ao longo do tempo.
- No primeiro mês, o grupo combinação GC + TO teve aumento significativamente maior no TDIS em comparação aos grupos GC ou TO isolados.
- Aos 6 meses, o grupo GC + TO continuou superior ao GC isolado, mas não mostrou diferença significativa em relação ao TO isolado.
- No subtipo ECRSwNP (com mais de 10% de eosinófilos), o benefício da combinação GC + TO se manteve nos 3 e 6 meses (mudanças maiores no TDIS) e com menor incidência de flutuações olfatórias (OF).
- No subtipo NonECRSwNP, a combinação GC + TO foi superior à TO apenas no primeiro mês.
Conclusão
Para pacientes com CRSwNP e disfunção olfativa:
- A combinação de glucocorticoides com treino olfatório resulta em melhora mais rápida da função olfativa, especialmente no início.
- No longo prazo (6 meses), o treino olfatório isolado alcança resultado equiparável ao tratamento combinado — exceto no subtipo eosinofílico (ECRSwNP), onde a combinação mostrou vantagem persistente.
- Assim, em casos com forte componente eosinofílico, associar GC + TO pode reduzir as flutuações olfatórias e potencializar a recuperação do olfato.
Implicações clínicas para prática em otorrinolaringologia
- Em pacientes com CRSwNP que relatam perda do olfato, o treino olfatório (exposição sistemática a odores) deve ser fortemente considerado como parte do plano terapêutico.
- Em presença de evidência de inflamação eosinofílica (por exemplo, contagem de eosinófilos tecidual ou perfil clínico sugestivo), pode haver vantagem em iniciar tratamento com glucocorticoides + treino olfatório para acelerar e otimizar a recuperação olfativa.
- A monitorização do olfato (ex.: TDIS ou equivalente) e da qualidade de vida (ex.: SNOT-22) em seguimento de 3 a 6 meses permite avaliar resposta e ajustar abordagem de reabilitação olfatória.
- Considerando que o treino olfatório isolado alcançou resultados semelhantes à combinação em muitos pacientes, pode haver economia de corticoides e menor exposição a seus efeitos adversos em casos menos graves ou não-eosinofílicos.