
No artigo “Sinonasal Intervention Reduces the Need for Pressure Equalization Tube Placement in Atopic Adults”, de Lawrance Lee, Mihai A. Bentan, Elizabeth Mastoloni e Theodore A. Schuman, publicado no The Laryngoscope em abril de 2025, os autores investigaram se tratar doenças atópicas da via aérea superior (como rinite alérgica, asma, sinusite crônica) poderia melhorar também a função da tuba auditiva e reduzir a necessidade de colocar o famoso “tubinho de ventilção de ouvido (TV — ou seja, aquele “pequeno buraco amigo” que abrimos no tímpano quando a tuba não decide cooperar, causando acumulo de secreção dentro do ouvido.
Eles usaram dados de uma grande base (TriNetX Research Network) para formar grupos de adultos com doenças atópicas das vias aéreas + disfunção da tuba auditiva. Essas pessoas receberam intervenções médicas ou cirúrgicas para a via aérea superior — como sprays nasais de esteroide, terapias com anticorpos monoclonais (por exemplo, Dupilumabe, Mepolizumabe, Omalizumabe), cirurgia funcional endoscópica dos seios (FESS), septoplastia com redução de corneto inferior etc. O objetivo principal era comparar a taxa de colocação de TV antes e depois dessas intervenções.

Principais achados:
- A intervenção cirúrgica dos seios nasais (FESS) mostrou uma redução absoluta de risco (ARR) de cerca de 10,0% para a necessidade de tubo de ventilação.
- A septoplastia com redução de corneto inferior (BITSMR) demonstrou ARR de ~7,5%.
- As terapias com anticorpos monoclonais (mAb) mostraram ARR de ~5,5% em conjunto.
- O spray nasal de esteroide (fluticasona) teve ARR de apenas ~0,9%.
- A imunoterapia alérgica tradicional (“dessensibilização”) mostrou ARR de ~2,4%.
Interpretação prática:
Se você atende adultos atópicos com rinossinusite + sintomas da tuba ou orelha média, este estudo sugere que mexer na via aérea superior (cirurgia ou tratamento agressivo) pode ajudar também a evitar que o paciente “precise” colocar tubo no ouvido. Ou seja: em vez de esperar o ouvido “encher” ou o tímpano entrar em greve, tratar o nariz, os seios, os cornetos — pode evitar o passo “buraco no tímpano”.
Claro: não é mágica — a redução de risco não é de 100%. Mas 10% a menos numa medida invasiva já vale a pena considerar no planejamento. E para sprays nasais sozinhos? Menos impacto — ~1% de ARR, então não conta tanto como solução isolada.
Limitações e observações:
- É estudo baseado em coorte de banco de dados, com os limites inerentes a isso (como codificação de diagnóstico, variação de seguimento, etc.).
- Mesmo com redução de risco, não significa que todos os pacientes evitarão TV— ou seja, ainda haverá casos onde tubo será necessário.
- Necessário considerar custo, risco, e contexto individual: por exemplo, anticorpos monoclonais têm custo elevado e implicações de seguimento; cirurgia também tem riscos e recursos.
- O spray nasal sozinho tem efeito modesto — então não serve “só colocar a bombinha e achar que tá feito”.
Conclusão:
Para quem é médico de otorrino ou paciente que vive “apertando ouvido no avião”, ou “ouvido que estala/quebra” com rinite, este estudo vem como um lembrete esperançoso: cuidar do nariz e dos seios da face pode ajudar a evitar que o ouvido médio entre no drama e peça intervenção (tubo de ventilação). Em resumo: “nariz limpo, ouvido ainda mais feliz”.
Dr Jonatas Villa – Médico Otorrinolaringologista – CRM 182.817 / RQE 85.640